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João Pessoa / O medo ronda as praças.

PRAÇA-DA-PAZ-siteImagine você dando uma volta em uma praça e se deparando com um casal fazendo sexo ao ar livre, com um grupo de pessoas se drogando, algumas vendendo e outras comprando drogas ou ainda se ver em meio a um tiroteio que, em alguns casos terminam em assassinato. É o que têm sentido os frequentadores das praças que polarizam as regiões Sul, Norte e Oeste de João Pessoa. Os espaços, que deveriam ser para uso das comunidades, estão se tornando territórios ocupados por criminosos, restringindo os horários para os cidadãos de bem, que não querem se expor à bandidagem.

Cinco praças foram visitadas pela reportagem do Correio e “violência” foi a resposta mais usada pelos usuários, quando perguntados sobre o que consideravam o principal problema da praça que frequentam. O tipo de violência varia de acordo com a região. O uso de drogas de forma aberta, em qualquer hora do dia é comum em todas as praças. No entanto, algumas estão marcadas pelo tráfico, enquanto outras se tornaram palcos de confrontos armados e assassinatos. Todas têm ausência das forças de segurança. Em algumas, a falta de podas cria oportunidade aos bandidos, a exemplo da escuridão que toma conta da Praça Sílvio Porto, em Manaíra. No local, as árvores sem poda se encontram no alto e impedem a passagem da iluminação, transformando o local em um ambiente sombrio, favorável aos assaltantes.

A mais famosa das praças de João Pessoa, uma das primeiras a ser construída, a Praça da Paz, nos Banca´rios, é também a detentora dos relatos mais estarrecedores e da maior variedade de violência.O tráfico de drogas virou uma marca da Praça da Paz, na opinião de usuários e comerciantes. “Há dias aqui que a praça fica cercada, com um traficante em cada ponta. A gente fica de longe, só vendo os carros encostarem, as pessoas compram e vão embora. Quando caminhávamos cedo da manhã, passávamos e não podíamos nem olhar de lado porque eles achavam que estávamos observando o que faziam. Foi se criando um ambiente ameaçador e hoje em dia ninguém mais caminha aqui, antes das 6h”, contou o usuário, que não quis se identificar, temendo represália.

Já uma comerciante que trabalha na praça foi mais além e denunciou. “Polícia? Pra que chamar polícia? Primeiro porque quando uma viatura aparece, os traficantes escondem a droga e fingem ser lavadores de carro. Segundo porque já me decepcionei com coisas absurdas, como uma vez que chamamos a polícia e, ao invés de prender, os policiais ficaram conversando e se drogando junto com eles. Outros policiais vêm aqui dando uma de P2, só para tomar a droga dos traficantes e ir embora. Não adianta. O jeito é fazer a política da boa vizinhança e evitar problemas, até porque muitos traficantes ganham o dinheiro vendendo droga e vêm gastar bebendo aqui. E se souberem que os denunciamos, como fica nossa situação?”, desabafou.

O comércio e o consumo de drogas, somados à bebida alcoólica que é vendida durante toda a noite na praça, criam uma mistura explosiva que, não pouco frequente, termina em morte. O último caso aconteceu um dia depois do São João, mesmo com pouco movimento de visitantes. Uma mulher foi morta após se envolver em uma briga.
“Essa mulher vivia por aqui, bebendo e se drogando, junto com o suspeito que a matou. No dia do crime eles começaram a brigar aqui, não se sabe por qual motivo, foram ali para o posto já sob efeito de muita droga, a confusão cresceu, ele bateu nela e quando voltaram pra a praça, acabou nisso”, lembrou a comerciante.

Vandalismo

A Praça da Juventude, no Bairro das Indústrias também se tornou um local de crimes, com o primeiro assassinato acontecendo um dia após a inauguração. “Os homicídios aqui até deram uma parada. Mas os assaltos e a depredação da praça estão demais. No começo da manhã e no final da tarde ninguém pode vir pra cá, porque os malas ficam nas esquinas esperando para roubar. Para caminhar na praça é difícil, porque esses mesmos malas e outros, ficam empinando motos, não respeitam as pessoas. Até para usar a quadra é difícil”, contou um morador, sem se identificar. Segundo ele, o local não tem policiamento e a praça estaria sendo depredada.

Coqueiral: tiroteios e homicídios

Também na zona Sul da Capital, a Praça do Coqueiral, em Mangabeira, já ficou marcada por tiroteios e assassinatos, que afastaram os frequentadores dos horários noturnos. O último caso aconteceu em novembro do ano passado, quando uma pessoa foi morta e duas baleadas, ao lado da quadra. O morto, seundo a policia, um rapaz 21 anos, estava sentado em um banco e tinha pedras de crack no bolso da bermuda. A polícia apurou, com familiares das vítimas, que os três tinham envolvimento com tráfico. Eles foram atingidos por disparados feitos por três homens que chegaram de carro e não se importaram com o fato de haver outras pessoas na praça.

Em abril de 2015, um homem ficou ferido após trocar tiros com a polícia, na praça. Em dezembro de 2014, na véspera do Natal, outro jovem foi morto a tiros no local. “O problema é que uma boa parte dos jovens que vêm jogar bola na praça, ou até mesmo passear, têm problemas por aí, seja com o tráfico ou não. Daí, quando menos se espera, chegam os rivais para matá-los e não querem saber se tem gente por perto. Simplesmente atiram e quem quiser que corra. Acaba se tornando um risco para qualquer um de nós”, disse um comerciante que trabalha há três anos na praça.

Um servidor público, que trabalha na praça, também relatou o consumo de drogas, que acontece no local a qualquer momento do dia. “O problema é que muitos desses usuários acabam atraindo outros problemas pra cá, por terem dívida ou atritos com traficantes”, comentou.

Dando uma trégua

O tráfico é outro problema da Coqueiral, mas que, segundo frequentadores, acontece em períodos alternados. “Há uns três ou quatro meses atrás havia uma atividade desse tipo por aqui. Daí a polícia veio, fez umas operações e chegou a prender um traficante que estava aqui dentro, com uma moto roubada. Depois dessa prisão, houve uma parada na venda de droga. Até agora não recomeçou”, disse o comerciante.

Assaltos afugentam a população

A praça do Caju, que fica no Bairro do Bessa, já foi um uma das mais frequentados da Capital. Mas os assaltos, a venda de drogas e a presença de vândalos no local, afugentou os usuários. Até uma cabine da PM que havia na praça foi retirada após ser depredada. Os moradores do bairro que ainda vão ao local contam que passaram a adotar alguns cuidados como forma de proteção, como reduzir os horários e deixar de caminhar entre a residência e a praça. No local, o medo é generalizado, até mesmo de falar sobre o assunto.

Um dos usuários, que não quis ser identificado, disse que mora a duas quadras da praça, mas não tem coragem de ir caminhando até o equipamento, com medo de ser assaltado. “Com muita frequência nós ficamos sabendo de pessoas que foram assaltadas aqui, por homens de moto ou até mesmo a pé. Celulares, bicicletas e motos estão sendo tomados. Não dá mais para frequentar com a tranquilidade que fazíamos antes”, disse.

Comerciantes e usuários da praça reclamam da ausência das forças de segurança. No local existem dois quiosques padronizados, que também não escaparam da ação dos bandidos. “Cada um já foi arrombado duas vezes. Levaram TV, liquidificador, alimentos e tudo que conseguiram levar. Aqui estamos muito desprotegidos. Aqui ou ali passa uma viatura da PM, mas dá uma voltinha e vai embora. Não temos mais o postinho de polícia, que foi todo quebrado pelos bandidos. Até os dois guardas municipais que ficavam aqui, foram tirados. Eles não podiam fazer muita coisa, mas pelo menos ficavam atentos só a isso e chamavam a polícia quando precisava”, disse um comerciante.

Um local ‘fantasma’

No bairro de Manaíra está a Praça Sílvio Porto, que já foi muito frequentada, mas está se tornando um lugar fantasma, principalmente ao anoitecer. O motivo é a onda de assaltos que, de tão frequentes, se tornaram uma “atração” indesejável para os moradores dos prédios no entorno. “Tenho uma amiga que trabalha nesse prédio em frente que já perdeu a conta de quantos assaltos já assistiu ali da janela. Eu ainda não fui vítima, mas todo dia é um sofrimento ter que caminhar da parada de ônibus até aqui, passando pela praça, com medo de ser assaltada”, relatou a diarista Maria José Cordeiro.

A reportagem visitou a praça, ao anoitecer e testemunhou a escuridão. Isso por conta das árvores sem poda.

A Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb) informou que faz manutenção em todas as praças da Capital, com poda de árvores, recuperação do paisagismo e concerto de estruturas. De acordo com a assessoria de imprensa, as demandas seguem um calendário, mas podem ser solicitadas pelo 3218-9151.

PM e Guarda Municipal

O comandante do policiamento metropolitano da Capital, tenente coronel Lívio Sérgio Delgado, disse que o policiamento das praças é um trabalho da Guarda Municipal e que não existe uma patrulha específica de praças, na Polícia Militar (PM). “Essa função é de atribuição do município. Em vários estados, como São Paulo, os guardas civis andam armados, fazem policiamento das praças, prendem, conduzem suspeitos e dão conta do serviço. Aqui, pelo que sabemos, a Guarda se prepara para trabalhar armada em breve e deve fazer esse trabalho”, disse. Segundo o oficial, a PM pode atuar nas praças em situações em que a Guarda Municipal pedir reforço ou denúncias específicas.

A Guarda Municipal foi retirada de algumas praças, após situações de risco e ameaça de bandidos. Para retomar o patrulhamento, os guardas civis estão sendo preparados para usar armas. “Terminamos agora em julho o treinamento, com 100 horas/aula, conforme exige a legislação, para um grupo de 140 guardas civis. Agora estamos encaminhando a documentação para a Polícia Federal, para análise e expedição dos portes de arma. Acreditamos que terá um efeito positivo no combate a essa violência nas praças”, explicou Geraldo Amorim, secretário de Segurança Urbana e Cidadania.

Jornal Correio

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