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“Foi o medo de morrer”, desabafa mulher que matou marido.

ccEntre as 402 presas no Júlia Maranhão está Valdenize Maria Morais, 32 anos. Por 11 meses ela viveu um relacionamento com Celso. Só parou de apanhar quando ele foi preso. O sistema de segurança não conseguiu garantir que ele ficasse longe dela. Para não morrer e deixar quatro órfãos, ela o matou. “Um dia ele queria dinheiro para comprar crack e eu não tinha. Ele pegou a arma e disparou em mim, só que eu já tinha tirado as balas. Chamei a polícia, ele foi preso em Juripiranga, mas, um mês depois fugiu para me matar em Itambé (Pedras de Fogo), no dia 13 de janeiro do ano passado. No começo eu cuidava dele, mandava a comida todo dia. E ele sempre perguntava ao tio se eu estava com alguém porque me mataria e eu tinha muito medo. Arrumei um rapaz para tentar a vida. Viaturas da polícia chegaram perguntando se eu sabia onde Celso estava, porque no presídio tava cheio que ele fugiu ‘para matar a Índia’. Ele já tinha passado lá para ameaçar, com os braços rasgados de pular o muro. Rodaram e não o encontraram. Meu novo companheiro está preso na Máxima. Só o vejo nas audiências, já foram três e cinco juris remarcados. Foi legítima defesa”, defendeu-se.

O sonho de Valdenize é recomeçar do zero, mesmo com as marcas que a acompanharão a vida toda. Ela mostra as cicatrizes das agressões mais violentas que sofreu. Mas, quando fala dos filhos, de 10, 12, 13 e 14 anos, é que a tristeza toma conta de sua voz. “Ele parecia boa pessoa. Depois que ficou noiado fumando pedra, ‘dava’ em mim e nos meus filhos. Essa cicatriz no braço foi com vidro e cerveja. Uma vez ele saiu me arrastando na moto. Outra vez quebrou todos os móveis da minha casa em uma ‘piza’ grande que me deu. Dizia que ia pegar minha filha mais velha ‘daquele jeito’. Até quis alugar um quartinho para ele sair de casa. Todo mundo tinha medo dele, que batia no povo, me batia no meio da rua. Era fugitivo de São Paulo e de Limoeiro (Pernambuco). Já, o Fausto, nunca teve envolvimento com droga nem era violento. Trabalhava no bar comigo. A própria família do finado me defende. O tio disse à juíza que ele era ruim, andava armado. Na cadeia, todas dizem que fariam o mesmo no meu lugar. Queria cumprir pena fazendo qualquer coisa na rua, para ver meus filhos, que há um ano e 10 meses não tenho notícias. A pior coisa é a saudade. Quando estou triste, leio a Bíblia”, desabafou.

Destaque:

“Alguém disse que ele estava na favela e dizia que ‘de hoje eu não passava’. Falei aos policiais que se eu o visse, o mataria, pois, não poderia morrer com quatro filhos para criar. Ele veio de madrugada, ia me matar mesmo, não deu tempo ligar para a polícia. O Fausto (novo companheiro) atirou nele e eu dei facadas na garganta, com medo dele ficar vivo. Nunca fiz mal a ninguém e me pergunto como fiz aquilo. Mas foi o medo de morrer. Arrependida sim, porém, se não tivesse matado, teria morrido” – Valdenize Morais, detenta.

“Era ele ou eu”

Nos últimos dois anos, a população carcerária feminina cresceu 20% na Paraíba. Marciana Martins da Silva, de 24 anos, ajudou a engordar a estatística, quando matou o ex-marido no dia 05 de julho desse ano em Alhandra. “Só a morte nos separa”, dizia Washington de Lima Santos, o Tony, com quem ela morou junto por oito meses. “O conheci no dia 01 de novembro do ano passado e no dia 30 fui morar com ele. Fazia bico de pedreiro. Mas, só três meses depois o conheci de verdade. Descobri que era traficante e assaltava bancos. Foi a primeira vez que me envolvi com alguém assim. Fiquei louca e pedi a separação. Foi aí que ele passou a ser violento. Quando bebia, me batia com pau, colher de pedreiro e tudo o que encontrasse pela frente. Machucava até sangrar. Minha família me encontrava toda roxa e pedia que o deixasse. Eu tinha medo, denunciava e quando ele voltava era pior. A Lei Maria da Penha nunca me ajudou. Ele batia na minha filha, de oito anos, que não era dele. Eu o amava muito, era louca por ele, fazia tudo por ele. Mas, chegou um ponto que não aguentava mais. Fui embora quatro vezes e ele ameaçava minha família, que ia matar primeiro minha filhinha e depois os outros. Ele era capaz disso, pessoa ruim, que fala e faz”, relembrou com tristeza.

Marciana estava com a casa irmã, o cunhado, o sobrinho e a filha, quando Tony chegou ameaçando: “Vá para casa ou meto bala em todo mundo”. Com medo de uma chacina, ela foi apanhar mais uma vez. O marido que nunca deu flores, mostrou um facão, afirmando que seria com aquele instrumento que a mulher morreria, sem saber que quem perderia a vida seria ele. “Foi uma briga, nunca planejei. Eu disse que ele me matasse, mas, não fizesse nada com os outros, eles não tinham nada a ver. Ele insistia que me mataria naquele instante e no outro dia mataria todo mundo. Tomei o facão e acertei o braço e o pescoço. Ele tentou se defender, mas, tinha bebido. Foi tudo muito rápido, corri apavorada sem saber se ele estava vivo ou morto,.só soube quando a polícia estava me procurando e me desesperei, pois o amei e amo até hoje. Estava na casa de uma tia em Pedras de Fogo e me apresentei na delegacia. Quarta-feira será minha quarta audiência. Meu advogado pediu habeas corpus, que foi negado, pois, fui considerada de alta periculosidade à sociedade”, descreveu.

“Eu era babá em João Pessoa e cuidava da minha filha, que hoje está com o pai, desempregado. Sinto falta de colocar ela para dormir todas as noites. Mamãe fez isso para se defender, mamãe não é ruim. É o que digo à ela. A trancadura é angustiante, mas, minha família não me abandonou. Eu vivia só de casa para o trabalho e quero resgatá-lo. Me arrependi, porém, se não tivesse feito isso, eu que estava no lugar dele hoje. A culpa dói muito. Todos os dias sinto falta de como ele era antes de ser agressivo. A droga que ele usava era maconha. Tenho medo que a família dele tente se vingar, já recebi ameaças da irmã dele”, declarou Marciana.

“Era a vítima e virei a ré”

A história de Diva Galdino de Oliveira, de 24 anos, é diferente das outras companheiras porque de cela porque o homem que a agredia está vivo. A lesão corporal que provocou nele não foi fatal. “Sou viúva, meu marido morreu em uma tentativa de assalto, a pedrada e facada. Conheci o Eduardo, que é casado e ele passou a me perseguir, não queria que eu ficasse com outros homens. Um dia fui beber com o José Francisco de Araújo e ele chegou no bar, bateu no meu ombro e disse ‘vem aqui para eu dizer um negócio a tu rapidinho’. Imaginei que ele ia reclamar, me mandar para casa, ameaçar. Não pensei que ia me matar. Puxou a faca ‘se tu não subir nessa moto te mato na frente de todo mundo, diga que duvida da minha capacidade’. Tentei conversar, que ele pensasse na família dele e ele mandando eu subir. Obedeci. Ele estava muito louco, fumava maconha. Pilotava com uma mão e segurava o facão com a outra, então tomei, cortei o pescoço dele e pulei da moto. O José veio atrás e me deu carona. Hoje está preso por um crime que não cometeu, nunca fez mal a ninguém e trabalhava na roça”, descreveu.

Segundo relatou Diva, a moto de Eduardo desapareceu e ela foi indiciada por latrocínio no Conde, há seis meses. “A mulher dele deu parte de mim. Eu não fugi com medo da polícia, foi com medo dele. Meu filho até hoje tem trauma de polícia, porque eles invadiram minha casa como se eu fosse uma bandida perigosa. Destruíram tudo. Ele está bem, farrando do mesmo jeito e eu estou presa. Não mereço isso, ele sim. E ainda ameaça de me matar quando eu sair. Penso em ir embora. Meus filhos, de seis e sete anos, estão com minha mãe que está tomando remédio controlado. Ela não aceita que a filha que sempre a ajudou esteja presa. Nunca me imaginei nessa situação, essa reviravolta na minha vida, por causa de um homem que não pensou nos meus filhos. Sempre estive com eles em todos os momentos e no aniversário não pude. Gostaria de passar o natal com eles. Só tive a audiência de custódia. A convivência, o estabelecimento e a trancadura são ruins. Minha mãe não vem me visitar porque as condições são poucas. Choro, peço para ir ao chapão (castigo) para ficar sozinha”, contou.

Ressocialização

Mirtes Danielle da Silva, diretora da Penitenciária de Recuperação Feminina Maria Júlia Maranhão, destaca que mesmo tendo vivenciado crimes brutais, essas mulheres podem ter uma nova vida. “Acredito na ressocialização, colocando Deus em primeiro lugar e o desejo de mudar, com a educação e o trabalho podem ter outra vida. É forçoso reconhecer a precariedade do sistema penitenciário brasileiro, o que inviabiliza separar as apenadas pelo perfil criminoso. No geral, a situação de todas é igual, independente do crime ou motivação. A maioria não demonstra arrependimento e deixa explícito que faria tudo outra vez. Em quase todos os casos percebemos que a ideia é fazer justiça com as próprias mãos e se vingar. Fazer um julgamento sobre o que seria justo sem ter vivido o que essas mulheres viveram é difícil”, apontou.

Matou para não morrer

A delegada da Mulher da Zona Norte da capital, contou casos que vivenciou nas delegacias onde trabalhou. “Na noite de Natal, o marido chegou embriagado. A mulher tem filhos, não trabalha, o marido passa a noite bebendo e não traz nada para dentro de casa. Quando ela pergunta pelo dinheiro, ele avança para cima dela, aperta o pescoço. Sem ar, tentando se libertar, viu uma faca. Atingiu um órgão vital e ele morreu. No outro dia ela se entregou, franzina, grávida. Além da violência que sofreu por muitos anos, passou por todo o constrangimento do processo judicial e foi absolvida pelo júri popular. O histórico dele: já tinha matado a primeira mulher. A mulher sempre pensa que com ela será diferente, mas, ele é agressor, vai bater em todas se não fizer um tratamento”, narrou Amin Oliveira.

Justiça com as próprias mãos também é crime

Por maior que tenha sido o sofrimento e a violência sofrida por essas mulheres, a juíza titular do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de João Pessoa, Rita de Cássia Martins, justifica que fazer “justiça com as próprias mãos” também é crime. “Tudo na vida tem consequências. Nada justifica a violência. Uma mãe que comete homicídio, lesão corporal leve ou grave, vai presa e os filhos vão ficar abandonados. Não podemos mensurar os traumas de ter um pai morto e uma mãe presa, é uma família desestruturada. Marcas psicológicas, processo de depressão, dificuldade de relacionamento e vida profissional. Ela não vai mais responder no tribunal de violência doméstica, vai para um juiz criminal. Às vezes, o júri absolve, mas, o tribunal da consciência não. Em um congresso, ouvimos o depoimento de uma mulher que matou cinco maridos, um deles com água quente no ouvido. Ela contava com frieza e dava gargalhadas. Diferente daquelas que não aguentavam mais apanhar e só viam uma saída, que não é a saída. O certo é procurar ajuda junto à Justiça, Ministério Público, delegacia. Sair do ciclo de violência. Dá para evitar o desfecho trágico porque elas não estão desamparadas”, ponderou.

Para a magistrada, a violência doméstica é um problema social e de saúde pública. “É devastadora. A gente tem uma dificuldade muito grande com dados oficiais. Temos os institutos Avon, Perseu Abramo, Patrícia Galvão. O Mapa da Violência de 2015 traz dados de 2013. Porque é muito demorado. Não temos banco de dados e sistema unificado que nos dê subsídio. E as estatísticas é que orientam as políticas públicas. Estamos fazendo palestras nas unidades de saúde e faculdades de Medicina, conversando com os médicos para que tenham um maior compromisso no atendimento a essas mulheres, que se inteirem mais quando elas chegarem com corte no supercílio, mancha roxa e disserem que caíram da escada, tropeçaram na cozinha, bateram com a cabeça na porta. Às vezes ele até desconfia, mas, não quer se envolver, pois, há uma compreensão equivocada de que poderão ser chamados como testemunha em juízo. É preciso uma investigação melhor”, enfatizou Rita de Cássia.

Histórico de abuso

O psiquiatra e pesquisador da Faculdade de Medicina do ABC, Danilo Baltieri, realizou um estudo sobre o uso de drogas na prisão entre mulheres condenadas por crimes violentos. Um dos resultados mostrou que 24,13% das mulheres que cometeram roubos e homicídios tinham histórico de abuso sexual na infância. A pesquisa, realizada com o apoio da Fundação de Pesquisa de São Paulo (Fapesp), aponta que vários estudos revelam que a prisão de mulheres está associada a problemas sociais e psicológicos, como a pobreza e conflitos com parceiros abusivos. Quase 1/5 das mulheres encarceradas têm transtornos psiquiátricos, como distúrbios do estresse pós-traumático e do humor e o abuso sexual na infância também estariam associados ao uso de drogas.

Os traumas perduram

A psiquiatra Raquel Cordeiro explica que a vingança é gerada pelo trauma da violência sofrida, que interfere na personalidade, quando não superados. “A vingança é resultado das emoções não elaboradas, geradas pelo trauma. A pessoa acredita que estará em superioridade ao se vingar. A finalidade é responsabilizar ao outro pelo nosso sofrimento e cobrar ressarcimento, mesmo que emocional e não material. Os pais são nossas primeiras figuras de autoridade e as crianças têm necessidade real a proteção dos genitores. Quando esses são responsáveis pelas vivências negativas que geraram o trauma (a pessoa que deveria proteger é a mesma que expõe ao perigo), o impacto no psiquismo, na formação da personalidade, é muito mais danoso. Trauma é um termo de origem grega que significa ferida. A psicanálise transpôs para o plano psíquico, como uma consequência de um choque emocional violento capaz de produzir efeitos sobre o psiquismo como um todo. Pode advir de uma única experiência violenta ou da somatória de situações que se fixam e não conseguem ser elaboradas. O suporte psicossocial é a melhor maneira de transformar o desfecho traumático provocado pela violência e abuso e diminuir o sofrimento. Ressocializar e ter uma nova vida sempre é possível”, ponderou a médica.

Sem contato

A reportagem do Jornal Correio entrou em contato com a vara de Execução Penal de Patos, solicitando levantamento de presas que tenham sofrido algum tipo de violência (sexual,doméstica) e tenham praticado crimes (homicídio, lesão corporal) contra seus agressores e a população carcerária, porém, nenhuma informação foi repassada. A direção do Presídio Feminino informou que passaram pela unidade duas mulheres nessa situação, mas, já não se encontravam mais no local.

Em Cajazeiras, as ligações ao presídio não foram atendidas. Na Vara de Execução Penal, a juíza titular Paula Frassinetti estava de licença-maternidade e a substituta, Adriana Lins de Oliveira Bezerra, estava em São José de Piranhas e não pode responder.

População carcerária na Paraíba: – Gráfico de curva/barra

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