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Desertificação no coração da Paraíba.

No Projeto Geoparque Cariri paraibano, uma área estimada em 30 mil hectares entre os municípios de Boa Vista, Cabaceiras, São João do Cariri e Boqueirão, grande parte da caatinga está sendo devastada.

A extração da bentonita, minério responsável pela principal atividade econômica do lugar, é realizada na bacia sedimentar de Boa Vista, onde são encontrados fósseis formados pela natureza ao longo de 30 milhões de anos. A mineração destrói esse material de estudo. A orientação do órgão ambiental da Paraíba é que as crateras formadas pela extração sejam aterradas, o que piora as chances de pesquisa. Além disso, as cavas, se permanecessem abertas, serviriam para armazenar água, tão escassa na região.

De acordo com Djair Fialho, arqueólogo e geógrafo, a ideia de restauração ambiental do solo de onde se extraiu o minério bentonita é inviável, já que as chamadas lavras, após serem aterradas, “não servem para nada, pois o solo perde os nutrientes necessários à vegetação característica do lugar”, ressaltou.

“Sou da região, guia turístico desde os 12 anos de idade, acompanhei todos os processos de extrações minerais nos últimos 20 anos, de onde se retira bentonita fica uma cratera enorme. É um processo de remoção vegetal, capeamento do arenito ou do basalto até se chegar ao minério. Mesmo que se realize o aterramento e plante novas espécies no solo, elas só sobrevivem no máximo por cinco anos. Então é um gasto desnecessário para as empresas, que garantem a renda de metade da população dessas cidades. Sem falar que o uso das máquinas para esse fim utiliza óleo e polui o meio ambiente” – Djair Filho, arqueólogo e geógrafo.

Processo “em nível extremo”

“O processo de desertificação está em nível extremo. Primeiro, aqui é a região que menos chove no país, segundo a ação do homem através da criação extensiva de caprinos, o desmatamento, queimadas, plantações irregulares e, principalmente, a extração de minério, completam o agravo da coisa. Claro que se retirarem essas empresas daqui, a população não vai ter outra atividade econômica, mas é preciso que façamos um acordo de cooperação para que a vegetação ainda intacta, como a da Serra do Monte, seja preservada”, afirmou o arqueólogo.

A equipe do Jornal Correio da Paraíba, ao longo do percurso de visitação às lavras abertas no Distrito Bravo, município de Boa Vista, encontrou várias placas que defendiam a preservação do meio ambiente e outras que determinavam áreas em recuperação, embora nesses locais não existisse qualquer tipo de vegetação. Uma das empresas instaladas no lugar tem um viveiro de mudas destinadas à restauração ambiental exigida pela Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema), mas até no viveiro, onde as plantas são irrigadas diariamente, a maior parte das espécies não sobrevive à alta temperatura e à falta de nutrientes necessários às plantas.

Dessa forma, a comunidade do Distrito Bravo, junto à comunidade científica, está buscando uma conciliação com as empresas e a própria Sudema, com o intuito de reduzir os impactos provocados ao meio ambiente.

No próximo dia 18, será realizada uma reunião com empresários e moradores de uma propriedade privada na região de Boa Vista. Na ocasião, pesquisadores e representantes da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) estarão presentes para propor que as lavras de bentonita permaneçam abertas após a extração, defendendo que o método é mais apropriado na região, uma vez que as tentativas de restauração não têm surtido efeito.

A reportagem entrou em contato com a Sudema para questionar o método de cobertura das lavras e a possibilidade de deixá-las abertas, mas até o fechamento desta edição o órgão não se manifestou.

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Vegetação não se regenera

“A vegetação é adaptada, os animais também, mas com o aquecimento global e a exploração desenfreada, estamos vendo que as áreas não estão se regenerando, e essa é a grande dificuldade do bioma caatinga. A extração de bentonita tem pontos positivos, como o fato de gerar emprego e renda, mas existem estudos que dizem que essa matéria só irá durar por mais 50 anos, então precisamos aproveitar enquanto essas empresas estão aqui para nos ajudar pelo menos com a preservação de áreas que ainda não foram exploradas e com o que for possível, pois a restauração ambiental é uma ideia que não deu certo” – Djair Filho, arqueólogo e geógrafo.

Incentivar  o retorno social

O coordenador executivo do Departamento de Geologia da CPRM, Geysson Lages, lembrou que, apesar de se falar em impacto ambiental e desertificação, a mineração de bentonita tem um efeito localizado e se dá de forma regular, seguindo as normas dos órgãos ambientais competentes. Para ele, o diferencial é mobilizar as empresas instaladas na região para garantirem um retorno social e benefício futuro para os moradores das comunidades caririzeiras.

“Falar sobre impactos é algo relativo, por exemplo, o agronegócio é infinitamente mais danoso ao meio ambiente, ao passo que pulveriza agrotóxicos ao longo de quilômetros agricultáveis, contaminando espécies essenciais à vida, como abelhas, e a água de lençóis freáticos, irreversivelmente. Poucos falam sobre isso pois tem o apelo de matar a fome”, disse Geysson.

Melhor para a população. “Temos que entrar em acordo com as mineradoras do benefício futuro para a população (redução de impacto social) quando do fim da atividade. Ao final da extração as cavas são recobertas, ao invés disso essa cava seria convertida em uma sala de aula ao ar livre, mantendo o paredão da frente de lavra exposto e limpo, e parte da cava com estrutura até para receber pequenos veículos”, explicou.

Compensação ambiental. Segundo o geógrafo e tecnólogo em Geoprocessamento da UFPB, Leonardo Figueiredo Meneses, a Política Nacional de Meio Ambiente (Lei 6.938/81) prevê que toda atividade efetiva ou potencialmente poluidora deva passar por um processo de licenciamento ambiental para avaliar os impactos das atividades humanas sobre o ambiente. Já a Resolução 237/97 do Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente – é explícita quanto à exigibilidade do licenciamento ambiental para atividade de extração mineral, pois demanda um plano de recuperação das áreas degradadas pela atividade como peça do processo de licenciamento ambiental.

Para o professor Marcos Antônio Leite, do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a extração de bentonita na região do Cariri é legal e segue as normas de exploração mineral no Brasil.

Já a Lei nº 7.990/89 estabelece que os mineradores ou empresas de mineração deverão pagar aos Estados e Municípios o valor correspondente a 2% do faturamento líquido com a atividade a título de compensação financeira pela exploração de recursos minerais, compensação esta conhecida como CFEM. “Parte desse tributo poderia ser revertido em ações educativas e de pesquisa relativa à proteção dos recursos naturais”, ressalta Leonardo.

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Mudou muito

Nos locais de extração de bentonita são encontradas árvores fossilizadas há 23 milhões de ano, no Período Neógeno. Essa fossilização comprova, segundo o arqueólogo e geógrafo Djair Fialho, que o clima e a vegetação do cariri paraibano era totalmente diferenciado do que é encontrado hoje. Fósseis de arvores de grande porte encontradas somente na Mata Atlântica ou na Região Amazônica são achadas durante as escavações, mas não são devidamente armazenados para pesquisas posteriores.

“Passa 900 anos para se fossilizar essa árvore. É uma pena que não temos um cuidado dos órgãos estaduais em proteger e armazenar esses fósseis, que são raríssimos e poderiam nos ajudar, e muito, em estudos arqueológicos”, disse Djair.

Geodiversidade

Além das árvores fossilizadas, na região do Projeto Geoparque Cariri Paraibano, em especial na área de exploração da bentonita, ocorrem importantes elementos da geodiversidade que apresentam valor patrimonial do ponto de vista geológico e que, segundo Marcos Antônio, Coordenador do Projeto Geoparque Seridó (RN), merecem ser conservados.

“Existem fósseis de folhas, frutos e fragmentos de madeira, acompanhados de icnofósseis em forma de tubos verticais e horizontais com idade entre 20 e 30 milhões de anos que ocorrem em rochas sedimentares e estruturas em lavas almofadadas encontradas em basaltos (rochas vulcânicas) caracterizando um ambiente aquático quando da formação dessas rochas, isso a cerca de 30 milhões de anos. Ambos os exemplos são, de certa forma, raros no território brasileiro”, explicou. Correio da Paraíba

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