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Curiosidades de ‘O País de São Saruê’ na última reportagem da série

Astier Basílio

As imagens polêmicas do enterro de Di Cavalcanti estão nas latas do filme que Glauber Rocha leva na bagagem. Estamos em Brasília, 1977. Após passar pelos trâmites da censura, e apresentar o curta Di, ironicamente um dos poucos filmes censurados no Brasil até hoje, o cineasta baiano perambula pela cidade. Encontra-se com um velho conhecido, o paraibano Vladimir Carvalho com quem havia estado, dois anos antes, em Roma. Foi naquela ocasião que Glauber soube da proibição de O Pais de São Saruê. Assim que se encontram, a interdição do filme é um dos temas da conversa entre os dois.

“E aí? O filme não saiu ainda?”, pergunta Glauber. Não. O documentário havia seis anos que penava nos círculos do purgatório da burocracia e da censura do regime militar, àquele momento, tendo como presidente o general Ernesto Geisel. “Vladimir, você vai fazer o seguinte. Você me dá uma cópia desse filme que eu resolvo isso”. Após 35 anos desta conversa, Vladimir ri da intenção do herói do Cinema Novo. “Glauber era meio estabanado. Eu desconversei, disse assim: ‘tá, vamos ver isso’”.

Encerrando a série de matérias sobre os 40 anos do documentário O País de São Saruê, hoje falaremos sobre a epopeia para liberação do filme que só conseguiu ser assistido em 1979, quando o Brasil vivenciava, sob o governo do último presidente do ciclo militar, João Figueiredo, quando se dava a “abertura lenta, gradual e segura”.

É importante dizer que quando Vladimir Carvalho, na camaradagem cordial costumeira, recusou o auxílio de Glauber Rocha, o fez movido por uma coerência e razões de foro íntimo. É que dois anos antes deste encontro, quando a extinta revista Visão preparou uma edição especial sobre os “20 anos da Revolução”, como era conveniente chamar o Golpe Militar naquele tempo, o mundo cultural brasileiro caiu em estupefação e assombro quando Glauber Rocha declarou seu apoio aos militares – segundo ele – “legítimos representantes do povo brasileiro” e disse que o general Golbery do Couto e Silva, Chefe da Casa Civil, naquela ocasião, do governo Geisel era, ao lado de Darcy Ribeiro, “gênio da raça”.

“Naquele tempo era comum fazer sessões para o presidente e os ministros. Eu já fui lá uma vez, mas agora, participar de uma sessão com Lula”, revela Vladimir. “Mas naquele tempo, estas sessões com os militares, buscavam algum favorecimento. Eu não iria aceitar aquilo de maneira alguma”, explica o cineasta. Além de Glauber Rocha, um cineasta que tinha relações muito próximas com os militares, outros amigos também foram aos ouvidos de Vladimir portadores de uma boa intenção para aconselhá-lo a descobrir uma maneira de driblar os rigores da censura que proibiu o seu filme por “ferir os interesses e a dignidade nacionais”.

“Houve gente que me sugeriu que eu incluísse no meu filme, você veja mesmo, um discurso que Médici tinha feito no Recife, quando veio inspecionar a seca e disse algo como: ‘vi homens comendo sem sal numa terra de salinas’”, recordou Vladimir.

A interdição oficial impediu que O País de São Saruê participasse da Semana da Crítica do Festival de Cannes. A partir do ocorrido, Vladimir tomou uma resolução: todo e qualquer pedido que viesse em favor do filme seria encaminhado à censura. “Eu estava disposto a vencê-los pelo cansaço”, conta. A resposta às solicitações do cineasta era padrão: “deixamos de atender pó se encontrar interditado”.

Vladimir bateu a porta de dois paraibanos influentes. O ministro Oswaldo Trigueiro, do Supremo, que, conforme é relatado no livro em que se reproduz o roteiro de O País São Saruê, publicação da Universidade de Brasília, em 1986, “esquivou-se diplomaticamente, afirmando que o pedido de um ministro naquela situação era de muito pouca valia”. Personagem e financiador do filme quando prefeito de Sousa em 1966, Antonio Mariz, deputado federal eleito pela Arena, partido de sustentação ao regime militar, foi outro conterrâneo velho de guerra a quem Vladimir recorreu.

“É tempo, também, com certeza, de reclamar da Censura a liberação de outro documentário de Vladimir: O País de São Saruê. Desde 1971 mofa nas prateleiras da burocracia, interditado. Realizado há cerca de dez anos, Ariano Suassuna considerou o diretor uma revelação e o filme, uma valiosa contribuição à cultura brasileira. Convidado a representar o Brasil em Cannes, não obteve licença oficial. Noutros festivais da Europa, convite dos críticos franceses Louis Marcorelles e Pierre Kast, tampouco logrou autorização para ser exibido”, proclamava, Antonio Mariz da tribuna da Câmara dos Deputados, em pronunciamento feito em junho de 1976.

No ano em que foi finalizado, 1971, O País de São Saruê foi selecionado para o Festival de Cinema de Brasília, porém, por decisão da justiça, foi substituído por Brasil Bom de Bola, de Carlos Niemeyer, em que se mostra o jogador Pelé sendo recebido e abraçado pelo presidente Médici. O imbróglio em relação ao documentário paraibano gerou protestou e ocasionou a suspensão do festival por 5 anos.

Na tentativa de vencer os censores pelo cansaço, Vladimir conheceu as vísceras do sistema. Chegou a tratar diretamente com Coriolano Fagundes, coordenador dos censores e autor do livro Censura e Liberdade de Expressão (editora Taika, 1974), uma teorização sobre o ofício do censor. Enquanto aguardava, além de tapinhas nas costas e frases como Vladimir ouvia coisas do tipo: “sirva um refresco aqui para o nosso amigo; vê que não somos tão terríveis assim” ou “mas você não é o Vladimir Herzog?” – brincadeira um tanto macabra: o xará do paraibano, jornalista, havia sido morto em 1975, nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo. Só restava ao diretor, “fazer uma cara complacente e oferecer um sorriso amarelo àquele horrendo senso de humor”.

Após a série O País de São Saruê 40 anos depois a conclusão que chegamos é a de que os bastidores das filmagens os trâmites da liberação se constituem num ótimo tema para outro filme. A ideia está lançada. Quem se habilita?

JCP

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