Amanda Carvalho
De origem ainda desconhecida, a esquizofrenia é um transtorno mental crônico que atinge 1% da população mundial, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Na Paraíba, de janeiro a novembro do ano passado, foram registradas 2.503 internações em hospitais da rede pública, segundo dados do Departamento de Informática do SUS (Datasus). Neste período, foram gastos mais de R$ 6,5 milhões com as internações, uma média de R$ 2.606,82 por cada uma. Segundo especialistas, a precocidade do diagnóstico é essencial para o paciente manter uma melhor convivência social.
O psiquiatra Rodrigo Bressan, coordenador do Programa de Esquizofrenia (Proesq) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Rodrigo explicou que a esquizofrenia acontece quando há uma disfunção do neurotransmissor dopamina, responsável por determinar a importância dada ao que se percebe e se pensa. Na doença a dopamina é maior do que nos pacientes saudáveis. Segundo ele, quanto mais precoce for iniciado o tratamento, maiores são as chances de o paciente ter uma convivência social melhor.
“A maioria das pessoas demora a ser diagnostica porque acreditam que se trata de macumba ou algo do mundo espiritual. Quanto mais cedo for o tratamento, melhor a evolução do paciente”, explicou. Ele ainda informou que os surtos psicóticos são nocivos ao cérebro e, quanto mais tempo o paciente passar neste estado, maior será a lesão, diminuindo as chances de remissão dos sintomas.
Os primeiros sinais da esquizofrenia surgem geralmente entre o final da adolescência e começo da vida adulta.
O psiquiatra Heydrich Virgulino, que trabalha no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) III Gutemberg Botelho, explicou que o pico da doença, em homens, é dos 15 aos 25 anos, e nas mulheres é de 25 aos 35 anos.
Ele ainda informou que a doença é mais grave nos homens, pois eles costumam desenvolver mais os sintomas negativos da doença, que são os mais difíceis de tratar. “Os sintomas negativos são o descuido com a higiene pessoal, isolamento social, falta de prazer ao desenvolver atividades diversas, enfim, executar as situações do cotidiano é diminuída”, explanou.
O tratamento consiste na ingestão de medicamentos que diminuem a dopamina, abrandando os sintomas da doença, como alterações do pensamento, alucinações, depressão ou euforia, déficits cognitivos, isolamento social, agressividade e comportamento suicida nos casos mais graves. Também é feito acompanhamento terapêutico.
Rede pública oferece tratamento
Na rede pública de João Pessoa, os pacientes com transtornos mentais, inclusive esquizofrenia, são acompanhados pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), espaço criado pelo Ministério da Saúde para substituir os hospitais psiquiátricos em todo o Brasil. Na Paraíba, existem atualmente 71 Caps.
A diretora do Caps III Caminhar, em João Pessoa, Francisca Lima Targino, explicou que o Caps faz o tratamento de acordo com as necessidades individuais de cada usuário, oferecendo terapia e acompanhamento multidisciplinar. Lá são acompanhados 230 pacientes com a doença. “No Caps temos uma equipe formada por psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, médicos, nutricionistas e farmacêuticos”, contou.
O psicólogo Saulo Feitosa, do Caps III, relatou que a maioria dos pacientes procura ajuda apenas na crise e grande parte deles não acredita que está doente e vivencia aquela realidade, que a doença construiu, como verdadeira. “O tratamento é a ruptura dessa realidade. Quando o paciente chega em crise, acolhemos e tentamos fazê-lo entender a doença”, disse.
Nesse momento entra o papel da família, de acompanhar o paciente em casa, de apoiá-lo durante as crises. “A pessoa com esquizofrenia acredita que não está doente, se chegar em casa e a família ficar dizendo que ele não precisa daquilo, esse paciente não irá melhorar”, explicou. Para alguns casos, a medicação deve ser administrada durante toda a vida do paciente. Saulo também citou o diagnóstico errôneo como problema no tratamento. “Alguns pacientes chegam aos hospitais em crise, mas os médicos não fazem diagnóstico de transtorno mental”, disse.
Na rede estadual, os pacientes têm direito a receber os medicamentos gratuitamente, no Centro Especializado de Dispensação de Medicamentos Excepcionais (Cedmex).
Novo medicamento no Brasil
Uma pesquisa recente do Ibope em parceria com o Programa de Esquizofrenia da Unifesp (Proesq) e a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre) mostra que a recaída da doença e a busca pela melhora da adesão ao tratamento são as maiores preocupações para 81% das pessoas que cuidam de pacientes com esquizofrenia. Um novo medicamento que chegou ao país promete contribuir para diminuir o número de recaídas. Com aplicação mensal e de fácil uso, o palmitato de paliperidona oferece conveniência ao paciente e pode prevenir recaídas, pois facilita a adesão ao tratamento e, se utilizado na fase inicial, pode mudar ou melhorar o prognóstico.
Para o psiquiatra Rodrigo Bressan, na maioria das vezes, as crises ocorrem porque a pessoa abandona o tratamento por acreditar estar curada já que os sintomas podem desaparecer. “A pesquisa mostrou que evitar a recaída é o principal objetivo dos cuidadores. Eles estão cada vez mais conscientes de que a adesão ao tratamento é fundamental para manter a doença sob controle”, destaca.
O psiquiatra Heydrich Virgulino também acredita que a injeção irá melhorar a adesão dos pacientes e diminuir as recaídas. “Infelizmente o serviço público ainda não disponibiliza esse tratamento, mas se o paciente precisar, pode entrar com ação judicial para obrigar o governo a oferecer”, afirmou.
Emergências em Mangabeira
O Pronto Atendimento de Saúde Mental (Pasme), que funciona no Complexo Hospitalar de Mangabeira, realiza o atendimento de emergência às pessoas em crise de algum transtorno mental, como esquizofrenia, depressão, neuroses e síndromes neuróticas, entre outros. O médico psiquiatra Arlindo Félix da Costa Neto, plantonista do local, explicou que o serviço do Pasme se assemelha a uma emergência clínica: o paciente é examinado, medicado e, dependendo do caso, é transferido para acompanhamento em clínicas ou internação em hospitais psiquiátricos. Arlindo informou que, em casos de crises graves, o paciente fica em observação no local, e os médicos conversam com familiares e com o próprio paciente para decidir qual será o melhor acompanhamento.
“Quando a situação é muito grave, o paciente é transferido para um hospital psiquiátrico para internação”, informou.
Apesar dos Caps terem sido criados para substituir os hospitais, Arlindo disse que ainda não há uma estrutura suficiente para a demanda. “Os Caps são poucos, mas funcionam. Porém, não tem como internar por 24 horas por vários dias. Ainda estamos em processo de transição”, afirmou.
Vozes e vultos são sintomas
O sintoma mais comum da esquizofrenia é a alucinação auditiva e visual. O psicólogo destacou que o relato clássico dos pacientes é que tem alguém querendo matá-los, falando mal deles, obscenidades e coisas negativas a seu respeito. Que tem alguém perseguindo, que estão em frente a sua residência. “A esquizofrenia é um transtorno mental psicótico que gera grande angústia e mal-estar aos pacientes, que sofrem com alucinações visuais e auditivas. Eles ficam em estado grande de agitação e podem até ficar violentos”, explanou.
Lucilene Campos Brasileiro, 36, diagnosticada com esquizofrenia há aproximadamente 10 anos, faz tratamento no CAPS III Caminhar há quatro. Ela relatou que o início da doença foi bastante difícil e assustador, pois ela ouvia vozes, que ela classificou como “barulho” que a mandavam fazer coisas e atrapalhavam sua convivência com as outras pessoas. Ela disse que, com o barulho, uma pessoa podia chegar perto dela, mas ela não iria dar atenção a conversa. “Era como se a doença estivesse no comando e não eu”, explicou. Lucilene contou que no começo acreditava que não estava doente e que as vozes tinham relação com a espiritualidade. “Hoje, o barulho diminuiu, pois sei que estou no controle e não a doença. Estou falando aqui e continuo ouvindo as vozes, mas sei que não estão ali”, afirmou, acrescentando que o apoio da família é essencial.
Família é afetada pela doença e apoio é essencial no tratamento
A esquizofrenia não afeta apenas o paciente, mas toda a família e pessoas que convivem com a doença. A pessoa em crise requer muitos cuidados dos parentes e apoio para começar – ou dar continuidade – ao tratamento medicamentoso e terapia. O psicólogo Saulo Feitosa explanou que a família também sofre em momentos de crise, ficando com o sono prejudicado, tendo trabalho de vigília redobrado. “As pessoas próximas não conseguem descansar, relaxar, nem dormir. Precisam ficar 24 horas em alerta para que a pessoa doente não se machuque ou machuque outros”, informou.
A filha de Marileide Alves da Silva foi diagnosticada há 5 anos com esquizofrenia. Marileide disse que foi um susto e uma surpresa, já que não tem histórico na família de transtornos mentais. Antes da crise, a filha trabalhava como professora, formou-se no pedagógico, era casada e tem um filho. “A minha filha era uma pessoa muito tranquila, ensinava em colégio público e particular, nunca teve problema. Ela começou a ter dores de cabeça e depois surtou: ficou com mania de perseguição, não podia passar um carro que ela se desesperava. Foi muito difícil, ela ficou igual a uma criança”, relatou.
Marileide levou a filha para o Caps, quando era no Valentina, mas ela não quis ficar, tentou fugir, e teve que ser contida pelos seguranças. “Foi horrível, muito horrível, mas se não fosse o Caps, minha filha não estaria hoje boa”, contou. Marileide se lembra da história muito emocionada e disse que a pior coisa que teve que enfrentar foi o preconceito das pessoas. “As pessoas ficavam dizendo que eu tinha uma filha doida e que também estava ficando. Elas passavam pela minha casa e diziam para não entrar lá porque tinha uma pessoa doida. Isso é muito difícil, machuca muito”, lamentou.
Até o filho pequeno cuida da mãe, contou Marileide. Ela disse que há dias que a filha não consegue fazer nada, fica apenas dormindo, como se estivesse anestesiada. Nessas ocasiões, Marileide cuida do neto e os seus outros filhos ajudam a cuidar da filha doente. “Ela faz tratamento no Caps uma vez por semana, nos outros dias ela fica em casa, cuida do filho, deixa ele na escola. Mas tem dia que ela não consegue fazer nada, não termina nenhuma tarefa, deixa o fogão ligado. Por isso que nunca a deixamos sozinha. É um cuidado 24 horas”, relatou.
Além do acompanhamento para a filha, Marileide disse que também participa de grupos de parentes com a doença na família e acredita que é muito importante esse contato com pessoas que passam pelo mesmo problema. Além dos grupos, Marileide participa de todos os eventos que acontecem no Caps e está sempre apoiando a filha em seu tratamento. “Não é fácil lidar com a doença, ela abriu os meus olhos para muitas coisas. A família e os amigos são importantes para o tratamento, mas o acompanhamento médico é essencial”, disse.
Tipos de esquizofrenia e sintomas (Fonte: CID 10)
F20.0 Esquizofrenia paranóide
A esquizofrenia paranóide se caracteriza essencialmente pela presença de idéias delirantes relativamente estáveis, freqüentemente de perseguição, em geral acompanhadas de alucinações, particularmente auditivas e de perturbações das percepções. As perturbações do afeto, da vontade, da linguagem e os sintomas catatônicos, estão ausentes, ou são relativamente discretos.
F20.1 Esquizofrenia hebefrênica
Forma de esquizofrenia caracterizada pela presença proeminente de uma perturbação dos afetos; as idéias delirantes e as alucinações são fugazes e fragmentárias, o comportamento é irresponsável e imprevisível; existem freqüentemente maneirismos. O afeto é superficial e inapropriado. O pensamento é desorganizado e o discurso incoerente. Há uma tendência ao isolamento social. Geralmente o prognóstico é desfavorável devido ao rápido desenvolvimento de sintomas “negativos”, particularmente um embotamento do afeto e perda do desejo. A hebefrenia deveria normalmente ser somente diagnosticada em adolescentes e em adultos jovens.
F20.2 Esquizofrenia catatônica
A esquizofrenia catatônica é dominada por distúrbios psicomotores proeminentes que podem alternar entre extremos tais como hipercinesia (exagero de movimentos) e estupor (sensibilidade parcial ou insensibilidade), ou entre a obediência automática e o negativismo. Atitudes e posturas a que os pacientes foram compelidos a tomar podem ser mantidas por longos períodos. Um padrão marcante da doença pode ser constituído por episódios de excitação violenta. O fenômeno catatônico pode estar combinado com um estado de sono com alucinações cênicas vívidas.
F20.3 Esquizofrenia indiferenciada
Enfermidades psicóticas que preenchem os critérios diagnósticos gerais para a esquizofrenia mas que não correspondem a nenhum dos subtipos anteriores, ou que exibam padrões de mais de um deles sem uma clara predominância de um conjunto particular de características diagnósticas.
F20.4 Depressão pós-esquizofrênica
Episódio depressivo eventualmente prolongado que ocorre ao fim de uma enfermidade esquizofrênica. Ao menos alguns sintomas esquizofrênicos “positivos” ou “negativos” devem ainda estar presentes, mas não dominam mais o quadro clínico. Este tipo de estado depressivo se acompanha de um maior risco de suicídio. Se o paciente não apresenta mais nenhum sintoma esquizofrênico, deve-se fazer um diagnóstico de episódio depressivo. Se os sintomas esquizofrênicos ainda são aparentes e proeminentes, deve-se manter o diagnóstico da forma clínica apropriada da esquizofrenia.
F20.5 Esquizofrenia residual
Estado crônico da evolução de uma doença esquizofrênica, com uma progressão nítida de um estado precoce para um estado tardio, o qual se caracteriza pela presença persistente de sintomas “negativos” embora não forçosamente irreversíveis, tais como lentidão psicomotora; hipoatividade; embotamento afetivo; passividade e falta de iniciativa; pobreza da quantidade e do conteúdo do discurso; pouca comunicação não-verbal (expressão facial, contato ocular, modulação da voz e gestos), falta de cuidados pessoais e desempenho social medíocre.
F20.6 Esquizofrenia simples
Transtorno caracterizado pela ocorrência insidiosa e progressiva de excentricidade de comportamento, incapacidade de responder às exigências da sociedade, e um declínio global do desempenho. Os padrões negativos característicos da esquizofrenia residual (por exemplo: embotamento do afeto e perda do desejo) se desenvolvem sem serem precedidos por quaisquer sintomas psicóticos manifestos.
F20.8 Outras esquizofrenias
Ataque esquizofreniforme
Esquizofrenia cenestopática
Psicose esquizofreniforme
Transtorno esquizofreniforme
F20.9 Esquizofrenia não especificada
jornal correio