Agripino e o jogo

A propósito da decisão do Tribunal Federal da Quinta Região, concedendo liminar em agravo de instrumento e determinando que a Loteria do estado da Paraíba proíba a exploração de quaisquer modalidades de jogos, sobretudo o do bicho, nunca é demais lembrar a atitude do ex-governador João Agripino Filho, na década de 60, quando foi intimado pelo IV Exército a abolir a contravenção. O fato é narrado em minúcias no livro “O Mago de Catolé”, de autoria do jornalista Severino Ramos. Lembra que o jogo do bicho era controlado pela Lotep criada na gestão José Américo.

“A coisa aqui sempre foi aberta, sem nenhum tipo de camuflagem, com os pontos funcionando vizinhos a agências bancárias e repartições públicas. Durante mais de uma década, o resultado era anunciado pela rádio Tabajara, emissora oficial, para facilitar o trabalho dos agentes lotéricos do interior. Os números eram transmitidos em código: A – de Antônio; N – de Nevinha; S – de Severino, e assim por diante. Era o horário de maior audiência”, relata “Biu”. Atéque, ao término de uma reunião da Sudene, no Recife, Agripino foi procurado pelo general Malan, o ‘chefe’ do IV Exército.

De modo formal e cerimonioso, o general ponderou a Agripino que o governo federal resolvera acabar com o jogo do bicho definitivamente no país. Era determinação direta do presidente da República. O jogo deixou de ser caso de polícia para tomar ares de assunto de natureza militar. Dizia o general que, na sua área, o jogo estava proibido da Bahia ao Ceará e a Paraíba era uma exceção, daí pedir o seu apoio.

A reação irônica

Conforme a narrativa de Ramos, Agripino mediu o general de alto a baixo, deu uma risada e perguntou: “O senhor acredita, general, que acabou mesmo com o jogo do bicho na sua área?”. E ele respondeu: “Acredito, não, governador, tenho certeza”. João convidou-o, então, a acompanhá-lo no seu carro, dirigido pelo motorista Armando, apostador inveterado, a um ponto onde ele mesmo (JA) fazia a sua fezinha.

No percurso, na conversa, disse que até poderia proibir o jogo do bicho no estado, mas isso provocaria um problema social muito grave, já que mais de 40 mil pessoas viviam da sua prática na Paraíba. “Se o senhor me garantir 40 mil empregos para essas famílias, então assumo o compromisso de extingui-lo no meu estado”, provocou. E entraram num caldo de cana, em rua estreita, em pleno centro do Recife.

A senha: macaco

Armando pediu uma carteira de cigarro, deu uma nota de um mil cruzeiros. O dono do bar avisou que não tinha trocado. “Então, me dê o troco de macaco”. Era a senha. O homem entrou num cômodo protegido por uma cortina de plástico e voltou com uma pule, que Armando entregou a seu chefe. JA passou a pule ao general Malan.

O militar ficou estarrecido. Agripino recomendou: “Guarde isso como lembrança. Mas lembre do compromisso: nenhuma represália contra o dono dessa banca. É um pobre diabo que se sustenta dessas ninharias”. Comentou-se, na ocasião, que o general Malan teria feito um relatório à presidência da República narrando o ocorrido. O governo federal desistiu de reprimir o jogo, que era uma instituição séria.

Tempos mudaram

João Agripino já não existe, e nem há mais profusão de homens de fibra como ele. Mas os tempos mudaram, em relação aos costumes. Tanto que em seu despacho o desembargador federal Leonardo Martins desdenhou do argumento de que o jogo do bicho seria uma forma de renda. Enfatizou que se trata de negócio ilegal, que guarda estreita relação com a criminalidade, e que deve ser banido da sociedade.

A Procuradoria Geral do estado da Paraíba recorreu da proibição, solicitando o deferimento de liminar até a apreciação de mérito e sustentando que há jurisprudência no STF sobre caso semelhante, em Ação analisada pela ministra Ellen Gracie. Independente da demanda jurídica que possa ser suscitada, será difícil manter o jogo do bicho em plena atividade. Não é uma solução politicamente correta, dizem.

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